Numa operação conjunta das polícias baiana e pernambucana, o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) Fernando Aparecido da Silva, 31 anos, foi preso anteontem à noite em Jaboatão dos Guararapes, município a 18km de Recife. Acusado de participar do assassinato do adolescente Lucas Terra, 14, o religioso teve prisão preventiva decretada na quarta-feira pelo juiz Vilebaldo Freitas, titular da 2ª Vara do Júri da comarca de Salvador. O réu desembarcou ontem à noite sob escolta policial e foi conduzido ao Departamento de Polícia Interestadual (Polinter), no prédio-sede da Polícia Civil, na Praça da Piedade.
Coube ao delegado Hélio Jorge Paixão, diretor do Departamento de Tóxicos e Entorpecentes, cumprir o mandado de prisão preventiva contra o bispo. Ao ser detido, por volta das 21h da sexta-feira, em um VW Golf da Iurd, o religioso tinha acabado de celebrar um culto no templo da Rua Barreto Menezes, em Prazeres, distrito de Jaboatão dos Guararapes. Aparecido estava em Pernambuco há 15 dias, a serviço da igreja. Ele deverá ser apresentado em entrevista coletiva amanhã, em horário e local a ser definido pela Secretaria de Segurança Pública.
Além de Aparecido, respondem pelo crime o pastor auxiliar Sílvio Galiza (já condenado e cumprindo pena em regime fechado) e Joel Miranda, pastor da Iurd e que continua foragido. Está marcada para terça-feira, às 9h, na 2ª Vara do Júri, uma sessão de acareação entre os acusados. É a quarta tentativa de realizar o procedimento.
O caso
O crime de que Aparecido é acusado aconteceu em 21 de março de 2001 e obteve repercussão internacional. De acordo com os autos do processo que tramita na 2ª Vara do júri, Lucas Terra sofreu abuso sexual e foi estrangulado no templo Iurd do bairro do Rio Vermelho.
Imaginando que o garoto estivesse morto, os criminosos incendiaram o corpo num terreno baldio às margens da Avenida Vasco da Gama – laudo do Departamento de Polícia Técnica apontaria que a vítima ainda vivia quando lhe atearam fogo.
Lucas era o caçula do casal José Carlos e Marion Terra. Passou a freqüentar a Iurd por causa da primeira namorada, que era obreira. Embora os pais não freqüentassem a instituição, acreditavam que o filho estaria seguro indo aos cultos.
Pais fazem vigília no aeroporto
Assim que soube, ontem pela manhã, por jornalistas, da prisão do bispo Fernando Aparecido da Silva, o pai de Lucas, José Carlos Terra, foi à sede da Polícia Civil, em busca de informações. De lá, seguiu para o Aeroporto Internacional Deputado Luis Eduardo Magalhães, onde fez vigília por mais de cinco horas no saguão, acompanhado da mulher Marion, mãe do adolescente. O casal disse ter recebido a notícia da prisão com “alívio e alegria”.
“Quero olhar para ele, acompanhar tudo. Meu filho, um garoto puro, inocente, foi queimado vivo por esses pedófilos. Espero que a justiça baiana os coloque na cadeia e não permita que saiam. Eu e minha família já fomos condenados a viver com esta dor. Vou ao Tribunal de Justiça ainda hoje (ontem à noite) para pedir ao juiz de plantão que não conceda habeas-corpus algum”, declarou, emocionado, Carlos.
Como eles, também aguardavam o desembarque do bispo três advogados, além de uma dezena de jornalistas. A cada desembarque de passageiros vindos de Recife, crescia a ansiedade. Ninguém, no entanto, viu o bispo Fernando, que deixou o aeroporto por uma saída lateral que dá acesso à sede do Comando de Operações Especiais (COE). Os advogados se disseram surpresos com a prisão. “Ele viria para a próxima audiência. Estamos procurando saber a razão alegada para o pedido de prisão para impetrar o habeas-corpus”, explicou um deles, Anderson Casé.
A família de Lucas aguarda agora a prisão do outro envolvido no crime, o pastor Joel Miranda, que estaria no município de Cabo Frio-RJ. Marion comemorou a prisão do acusado e, embora não goste de dar declarações, falou ao Correio da Bahia. “É uma questão da vida do nosso filho, nosso bem mais precioso. Ver este ‘poderoso’ ser preso mostra que a Justiça baiana não está indiferente”, opinou. O casal foi cumprimentado por passageiros que o reconheceu. Apertos de mão e palavras de conforto foram algumas das demonstrações de solidariedade.
Família diz que prisão de bispo foi ‘meia-vitória’
A família do adolescente Lucas Terra, assassinado brutalmente em 2001, disse que a prisão preventiva do bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), Fernando Aparecido da Silva, neste fim de semana, deu uma sensação de “meia-vitória” e que o desfecho final está se aproximando. Resta agora a prisão preventiva do pastor da Iurd Joel Miranda. Dos acusados de envolvimento no crime, até o momento, somente o pastor Sílvio Galiza foi condenado; ele pegou 18 anos de prisão pelo crime
O pai do garoto, o empresário Carlos Terra, afirmou que nada vai lhe trazer de volta a alegria do convívio com o filho, mas só a condenação de todos os acusados lhe trará a sensação de dever cumprido. “Estão sendo anos de muita tristeza, saudade e indignação. Lamentavelmente, as leis brasileiras condenam as vítimas e beneficiam os criminosos”, considerou. Pai de outros dois filhos, Terra atribuiu a punição dos culpados à sua persistência.
A peregrinação a órgãos judiciais e militantes dos direitos humanos incluiu desde vigília na porta do Ministério Público a visitas a Brasília e à sede da Anistia Internacional e da Organização das Nações Unidas, na Suíça. “Eles mataram o filho do homem errado. Foi uma coisa muito cruel. Quando perdemos os pais, perdemos o nosso passado. Mas quando é um filho, a gente perde o futuro”, destacou.
Com a prisão preventiva do bispo, ele espera agora ver Miranda também atrás da grade. E, nessa etapa, já se prepara para travar uma nova batalha contra a impunidade. “Os dois têm poder econômico elevado, mas eu tenho lutado e vou continuar lutando para mostrar que eles não são invencíveis. A sociedade baiana não permitirá essa absolvição”, aposta Terra.
O enfrentamento levou a família a receber inúmeras ameaças, mas não foram suficientes para calar seus membros. A única precaução do empresário foi em não expor a mulher, Marion, e os outros dois filhos. “Jamais vou me calar porque não temos nada nem ninguém”, disparou Terra, que assume dormir pouco porque, volta e meia, está pensando em estratégias para denunciar os acusados e juntar provas para ajudar a polícia. A militância na causa fez dele referência para outras famílias que também tiveram os filhos assassinados cruelmente e que lutam contra a impunidade.
CORREIO DA BAHIA